domingo, 19 de maio de 2013

A TURQUIA PARA ALÉM DE "SALVE JORGE"


Pode ser que muita gente discorde e até mesmo vire a cara para o assunto, mas novela brasileira é um produto nacional de grande apelo popular, de qualidade técnica reconhecida e, muitas vezes, de altíssima criatividade. Não podemos negar que se estamos numa roda de amigos, mesmo sendo ela toda masculina, o tema novela volta e meia aparece, seja falando de algum personagem, de alguma terra exótica ou de certas invenções ou maluquices que os autores e produtores resolvem encampar para, literalmente, verem no que vai dar. Exemplo notório dessas alucinações são as sandices imaginativas perpetradas em uma novela da Record que atendia pelo singelo nome de “Os Mutantes: Caminhos do Coração”, exibida em 2008, cujo enredo tresloucado formado por replicantes meliantes mutantes vivos-mortos milhões de brasileiros e eu jamais entendemos. 

Haghia Sofia, Istambul-Por Sávio Siqueira


A novela Salve Jorge, de Glória Perez, que acaba de acabar, trouxe à baila um assunto bastante atual, sério e muitas vezes invisibilizado, o tráfico internacional de pessoas, além de, em termos de cenários e possíveis enlaces e viagens (inter)culturais, a Turquia, esse país, para muitos de nós desconhecido, e, não raramente, e de forma errônea, inclusive na geografia, singularizado como parte daquilo que nos acostumamos a chamar de Médio Oriente, apenas porque a maioria de sua população é muçulmana. Foi mais uma novela desta autora orientada por uma fórmula antiga que, mesmo encarnando estereótipos desgastados, desafiando os obstáculos do tempo e da distância (lembremos de América – Miami era quase da cozinha, O Clone – o Marrocos era ali do lado, e Caminho das Índias – Mumbai nunca esteve tão perto, era um pulo!), chamou a atenção por trazer como pano de fundo aspectos culturais instigantes ou situações polêmicas como a imigração ilegal de brasileiros para os EUA, a posição inferiorizada da mulher nas sociedades islâmicas e, no caso da Índia, o difícil entendimento por parte da sociedade ocidental da estrutura de castas, onde, até hoje, os dalits são vistos como intocáveis, a escória da base da pirâmide.

Salve Jorge, com sua ponte aérea Morro do Alemão/Rio de Janeiro-Istambul/Capadócia, dentre tantas doideiras, mostrou que esse pessoal de novela, por levar os ditames da atual globalização a extremos, deveria realmente começar a ter seus textos classificados como ultrarrealismo fantástico, talvez. Por conta do dinamismo e da rapidez da imagética, os nossos noveleiros têm exagerado. E Glória Perez, neste pormenor, é pioneira. Nesta novela, além de conceber dezenas de personagens absolutamente inúteis e totalmente ‘sem noção’, a autora se suplantou em muitos aspectos no tocante a que Turquia apresentar aos seus telespectadores. Excetuando as lindas e fantásticas imagens, todas, garanto, sem qualquer possibilidade de maquiagem, a novela revelou uma Turquia parcial e absolutamente caricata que, para muita gente, nada mais é que um atrativo para um bando de ignorantes classe média resolverem rumar para lá apenas para conhecer o cenário por onde Morena, Theo e a gangue de malfeitores formado por Lívia, Russo e Wanda, além do guia turístico Ziah, com suas mulheres desocupadas, perambularam. Bom para o turismo da Turquia, sem sombra de dúvidas, uma das indústrias mais bem organizadas daquela terra de tanta história e tantos mistérios.  

Mas vamos às pequenas curiosidades. Para começar, a ignorância sobre este país reinava inclusive entre aqueles atores que lá estiveram para as gravações. Lembro que na noite de lançamento da novela, o pessoal do CQC, do lado de fora do evento, perguntava a vários dos artistas qual era a capital da Turquia e mais de um respondeu Istambul. Sequer se deram ao trabalho de ao menos descobrir que a atual capital da velha Constantinopla é Ankara. A Turquia de Salve Jorge, pasmemos, fala português carioca, com direito a umas incursões ridículas do idioma local e as repetitivas fórmulas comunicativas como Merhaba (Olá!) e Güle Güle (Tcahu!). Isso sem falar nos mais fartos e grotescos exemplos de inverossimilhança no tocante a vários aspectos.

A título de exemplo, tomemos as distâncias entre o Brasil e Turquia, além das viagens internas para a Capadócia. Para se chegar a Istambul sem escalas, há um voo direto que parte de São Paulo apenas com duração de 12 horas. A passagem ida e volta não sai por menos de 1,800 dólares. A delegada Helô, sua filha patricinha, seu genro inútil e seu ex-marido Stênio, Lívia, Wanda, Russo, Mustafá, Berna, Aisha e por aí vai foram e voltaram pelos menos umas dez vezes para lá e para cá e em tempo recorde, desconsiderando, nada mais nada menos, que um fuso horário de 6 ou 7 horas em relação ao Brasil, dependendo do período em que se viaja para o país que marca o fim da Europa e o início da Ásia ou vice-versa. Isso sem falar nas várias vezes em que a trupe bandida de Lívia rebocou de jatinho do Rio de Janeiro para a Turquia uma morena amarrada, sem direito a sequer ir ao banheiro ou a sua filhinha que foi, no último capítulo, parar nas mãos de uns camponeses turcos nas montanhas da Capadócia. Isso é que é globalização: do Morro do Alemão para um morro turco. Viva a tresloucada imaginação de Glória Perez!

Para quem está em Istambul, a maneira mais fácil e rápida de se chegar à Capadócia, que é uma região da Turquia e não uma cidade como a novela deixa transparecer, é voar para locais como Antália ou Kayseri, e de lá seguir para os vilarejos de carro, táxi ou ônibus turístico. Só que cada voo para esses pontos internos da Turquia dura, em média, uma hora, ou seja, uma viagem de Salvador para Recife de avião. Na alucinação de Glória Perez, Ziah e seus amigos trabalhavam no Grand Bazar em Istambul até o final do dia e depois seguiam tranquilamente de carro para a Capadócia, chegando ainda de dia, como se fosse uma viagem de alguns minutos. Bobagem ficar remoendo este preciosismo, mas seria interessante que esses autores, mesmo encravados nas suas doideiras ficcionais, não abusassem do distanciamento do real que, no caso de Perez, ao tratar de temas sociais, tenta apresentar seu texto como um retrato fiel do mundo em que vivemos. Fideliza algumas coisas e fantasia outras tantas. Esta é a fórmula da autora. 

A Mesquita Yeni, Istambul-Por Sávio Siqueira

Salve Jorge, com sua trama abilolada, ainda que de forma artificial, mostrou um alemão próximo do real, mas esqueceu de explorar as riquezas histórico-culturais da Turquia, hoje um país que, embora esteja fora da União Europeia, cresceu nos últimos anos a uma média de 7%. Seus personagens não se interessaram por História, não se viu um diálogo sobre a velha Constantinopla, entrou-se em locais como a Hagia Sophia, um santuário emblemático encravado no coração de Istambul, sem sequer falar um pouco da sua importância para os assuntos religiosos daquele povo. Tudo, como sempre, ficou no nível do superficial, como se fazendo propaganda para os brasileiros classe média que viram ali um desvio de rota de Miami para um novo polo de sacolagem. Nada mais que isso, pois, infelizmente, turismo cultural nunca foi o nosso forte. 

Em suma, novela é novela e existe para nos divertir. A inegável qualidade estética de nossas produções, volta e meia, descamba para situações inusitadas, tendo Salve Jorge, ultimamente, neste aspecto, se superado. Personagens em excesso, um núcleo turco em que praticamente não se fazia nada, além de dançar, sorrir e comer, culminando com um esdrúxulo triângulo amoroso entre o guia Ziah, uma carioca desocupada que chega a aprender a dançar como uma turca e uma turca que fala português como qualquer um de nós que, a duras penas, percebeu que dor de corno dói do mesmo jeito em qualquer lugar do planeta. Glória Perez, no seu merecido descanso, deverá colher os louros de suas aventuras imaginativas e, com certeza, pensará que contribuiu para levar mais e mais brasileiros a um país misterioso como a Turquia. Bom para eles. Mas numa avaliação mais acurada, um dia, a autora saberá que, mais uma vez, subiu ao panteão das noveleiras que, com suas histórias tresloucadas, contribuíram para a consolidação da ignorância geral e irrestrita dos nossos viajantes globais oriundos destas terras tupiniquins.

Por conta disso, não custa lembrar, podem ter certeza, que nos próximos anos, só vai dar brasileiro doido para andar de balão na Capadócia, esperando sair correndo pelas montanhas da Turquia e se deparar com um monte de dervishes rodopiando em pleno pôr do sol. Isso sem falar na potencialização de uma doença brasileira global que agora mudará de cor e valor – compras – muitas vezes de coisas inúteis e pouco práticas. Sacolas vão voar. Salve Jorge acabou. Sobrevivemos às suas gafes e seringadas. Espero que a Turquia sobreviva a Salve Jorge, pois com a ida de tanto brasileiro para lá, ao invés de Atatürk, será Morena a figura mais celebrada de Istambul. Quando, um dia, e não deve demorar, Salve Jorge for exibida na Turquia, espero que os turcos não riam de nós. Afinal, pelas mãos mágicas de Glória Perez, as distâncias entre Brasil e Turquia, simplesmente, deixaram de existir. Milagre, milagre, milagre!  

Sávio Siqueira
19 de maio de 2013     

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