Já estamos no Ano Novo. Sol a pino nessas
bandas de cá do Atlântico sul. Como disse Drummond, a pessoa que teve a
brilhante ideia de fatiar o tempo era mesmo um gênio. Parece uma coisa banal,
porém, esse negócio de passagem do ano, simbolicamente, mexe com todos nós de
maneira irrefutável. Não há como negar que nessas primeiras horas de um novo
ano, somos todos afetados por uma sensação estranha, seja ela boa ou ruim, mas
que não passa incólume por nenhum ser humano. Estamos, sim, virando mais uma
página do tempo e, claro, para aqueles que acreditam, é hora de fazer uma pequena
reflexão sobre a vida para então tocar... a vida. A mesma vida, sem promessas
e sem barulho.
Para
uns afortunados como nós, nativos dos trópicos, que moramos bem perto da
praia, fechar um ano à beira-mar tem um toque sempre especial. Na verdade,
há toda uma mística que arrebata até os menos afeitos a questões
religiosas. Para começar, rendendo-se à fé marcante, tão típica do nosso povo,
muita gente se veste de branco para romper o ano limpa, virgem (uau!),
totalmente de alma lavada. Há aqueles (e aquelas) mais calientes que preferem o
vermelho, cor da vida, sangue, fervor latino, e que se jogam ano novo adentro
com todo o otimismo que o momento, de alguma maneira, referenda. Mas tem gente
que prefere azul turquesa, verde limão, rosa bebê. Seja lá qual for a cor, o
importante é entrar o novo ano com a cara renovada e, com licença do clichê, “sem medo de ser feliz”.
O
dia amanhece e a praia é um convite ao relaxamento. É domingo. Os presentes
ofertados a Iemanjá na noite anterior, flores principalmente, ainda enfeitam e
perfumam o ar quente que carrega os grãos de areia para longe, transformando,
dia após dia, a minha linda paisagem, onde rio e mar não cansam de se
lamber. Não é praia de pits nem de pats, para quem não sabe, pitbulls
e patricinhas; ao contrário, é praia de gente simples, de carne osso, de
cabelos ouriçados, como se dizia antigamente. Praia de gente da pele curtida,
dos calções furados, das sandálias Katina. Praia sem barracas com
ar-condicionado, com tudo ‘excluso’, praia ‘povão’, um e noventa e nove, zero
oitocentos total. Welcome to Farofaland!
Entre rio e mar-Barra do Jacuípe, Bahia, Brasil-Por Sávio
A
turma dessa vez está muito mais organizada. Os ônibus estão distantes. Nem
sinal daqueles bólidos carregados de passageiros que, feito colmeias, nos
mandam centenas de pessoas alemejando apenas um domingão de lazer. Como não têm
muito dinheiro para torrar, mesmo nessas bandas, onde as coisas são mais
acessíveis, eles capricham na estrutura ‘farofal’. Uma tenda branca daquelas de
casamento chique abriga, pelo menos, umas vinte e cinco pessoas. É hora do
rango. A meninada, claro, embebida em bronzeador de saquinho, se diverte entre
água e areia, esculpindo, de quando em vez, legítimos e hilariantes ‘bifes à
milanesa’. Vejo aquilo e imagino a cara daquelas mulheres
plastificadas, sem nenhum fio de cabelo fora do lugar, com enormes
óculos Versace totalmente fashion,
parecendo personagem de mangá japonês, diante de bifes à milanesa da Farofaland
bem ao lado. Rio solitariamente e ninguém entende o que está se passando
comigo. Ressaca de água mineral, talvez. Apenas rio. E que venham os bifes!
Debaixo
da enorme tenda, no mínimo, umas cinco caixas de isopor lotadas de comidinhas
gordurosas e que servem para matar a fome, dando sustança até o final do dia,
quem sabe, quando chegar a hora de voltar para o ônibus, já à noitinha. O
cheiro de frango assado invade o ambiente e desfila atraentemente por todo o espaço
que, democraticamente, ocupamos. Cerveja, sim, Nova Schin da boa, geladíssima e saboreada a cada golada. Bebe
homem, mulher, adolescente. Só não bebe criança. Uma negra bem servida de
quilos, de saião rodado e sutiãs gigantes que mais parecem dois pára-quedas,
dança ao som vibrante do arrocha de Nara Costa: “Ah, faz do jeitinho que
Nara gosta...”. E segue no seu ritmo lento e alegre, sensualmente se
esfregando no rapaz esguio que, perplexo, à sua frente, parece não saber como
se juntar à avantajada dama naquela contradança esquisita e fugaz. O fim da
página musical, em pleno sol escaldante do verão de janeiro, salva-lhe o
pescoço.
Em
Farofaland alegria não falta. Quanto mais farofa, mais energia. Sobe um
cheiro de feijoada. Uma fumacinha vinda do fundo da tenda anuncia que um
churrasquinho está a caminho. Cardápio variado. Já não se fazem mais farofeiros
como antigamente! É isso. Keep walking. Será possível? Uma garrafa de Red
Label reluz ao meu lado e começa a plainar de mão em mão. Parece uísque
mesmo. O bico não fora retirado para o típico aproveitamento das garrafas com
outros líquidos menos nobres. Não é licor de jenipapo. Nem cachaça. A cor
denunciaria. Mas que (pré)conceito o meu! Farofaland tem toques de Oscar
Freire. Não tem tapete vermelho, mas está virando a nossa própria Quinta
Avenida. Isso é que é globalização!É uísque mesmo. Um legítimo Red Label,
com direito a tapete vermelho imaginário nas areias desta Bahia mestiça. O
andróide da propaganda sequer imaginaria que em Farofaland as pessoas
também querem continuar a andar. E lá vão elas. Mas aí me lembro que o Keep Walking é do Johnnie Walker. Ah, deixa pra lá...
Foz do Rio Jacuípe, Camaçari, Bahia-Por Sávio Siqueira
E
tudo é muito interessante. Um ritual popular. E ao invés de ficarmos destilando
preconceitos, é muito interessante ver essas pessoas, tão brasileiras quanto
nós, se sociabilizarem com enorme dignidade na busca por seu lazer ao sol.
Literalmente, o sol tem mesmo que ser de todos. E lá para o meio-dia
ou uma hora da tarde, de barriga mais que cheia, nossos amigos, belos filhos
da amálgama tupiniquim, correm da tenda e se aninham às sombras dos
coqueiros para, com todo luxo, tirarem uma pestana à beira-mar. A primeira
sonequinha do novo ano. Saem em disparada, jogam areia em vizinhos como eu,
cospem alegria na toalha de onça da madame de óculos Versace. Observo
que ela, com semblante indignado, limpa a bunda roliça, estica o biquíni,
desliza uma perna sobre a outra e volta ao seu Código Da Vinci. Melhor
seria se estivesse entregue ao glamour plastificado da revista CARAS. Mas que
nada, o verdadeiro ‘buxixo’ estava acontecendo na barraca de Farofaland logo
acima. Desfile de moda de gente de bem com a vida. E CARAS perdendo esse
cenário tão brasileiro...
Enfim,
ano novo, vida igual, dívidas persistentes e cada vez mais aparentes. Nada como
um ano após o outro (ôpa, clichê!). Um ou dois dias de ‘relax’ apenas para
lembrar que a nossa vida, seja ela o que for, é mesmo uma grande farofada ao
vento. Vento que controla o nosso destino, e no seu leva e traz, nos mostra que
o mundo está ficando cada vez mais igual, principalmente nas classes mais
abastadas, onde pode-se ser a mesma pessoa siliconada na zona sul do Rio de
Janeiro, por entre os luminosos de Tóquio, nos círculos de Nova Déli, nas ruas
de Manhattan. Estamos ficando tão iguais. Isso não é bom. Melhor ser farofa!
Sendo
assim, que o ano novo nos traga, pelo menos, o diferente. Que resgate em cada
um de nós os farofeiros que um dia fomos, sem precisarmos disso nos
envergonhar. Que o ano novo renove em nossos corações a vontade de sermos
simples, singelos e frágeis tal qual a própria linha da vida. Muito simples
para, com muita humildade, ainda o dom dos nobres, podermos nos arrumar com
toda a família, carregar uma tenda branca para a praia, encher o isopor de
cerveja e comida e, depois de nos refestelarmos, brincarmos de bife à milanesa,
e, exaustos, nos entregarmos à sombra generosa de um majestoso coqueiro. Seria
o máximo, não? Quantos de nós deixamos de fazer essas coisas? Quantos de nós
viramos pessoas de plástico? O ano apenas começou. Dá tempo de reverter. Sempre
dará. Welcome to Farofaland. A vida por lá, pulsa, não imita, não
simula. A vida lá é vida. Welcome to Farofaland. E feliz ano novo... de
verdade. Sem silicone, falsos peitos, falsos sorrisos. Um ano novo simples e
verdadeiro como o mundo das gentes de Farofaland. Simples. Só isso.
Sávio Siqueira
Barra do Jacuípe, Bahia, 01 de janeiro de 2007
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