sábado, 18 de maio de 2013

WELCOME TO 'FAROFALAND'


Já estamos no Ano Novo. Sol a pino nessas bandas de cá do Atlântico sul. Como disse Drummond, a pessoa que teve a brilhante ideia de fatiar o tempo era mesmo um gênio. Parece uma coisa banal, porém, esse negócio de passagem do ano, simbolicamente, mexe com todos nós de maneira irrefutável. Não há como negar que nessas primeiras horas de um novo ano, somos todos afetados por uma sensação estranha, seja ela boa ou ruim, mas que não passa incólume por nenhum ser humano. Estamos, sim, virando mais uma página do tempo e, claro, para aqueles que acreditam, é hora de fazer uma pequena reflexão sobre a vida para então tocar... a vida. A mesma vida, sem promessas e sem barulho. 


Para uns afortunados como nós, nativos dos trópicos, que moramos bem perto da praia, fechar um ano à beira-mar tem um toque sempre especial. Na verdade, há toda uma mística que arrebata até os menos afeitos a questões religiosas. Para começar, rendendo-se à fé marcante, tão típica do nosso povo, muita gente se veste de branco para romper o ano limpa, virgem (uau!), totalmente de alma lavada. Há aqueles (e aquelas) mais calientes que preferem o vermelho, cor da vida, sangue, fervor latino, e que se jogam ano novo adentro com todo o otimismo que o momento, de alguma maneira, referenda. Mas tem gente que prefere azul turquesa, verde limão, rosa bebê. Seja lá qual for a cor, o importante é entrar o novo ano com a cara renovada e, com licença do clichê, sem medo de ser feliz.

O dia amanhece e a praia é um convite ao relaxamento. É domingo. Os presentes ofertados a Iemanjá na noite anterior, flores principalmente, ainda enfeitam e perfumam o ar quente que carrega os grãos de areia para longe, transformando, dia após dia, a minha linda paisagem, onde rio e mar não cansam de se lamber. Não é praia de pits nem de pats, para quem não sabe, pitbulls e patricinhas; ao contrário, é praia de gente simples, de carne osso, de cabelos ouriçados, como se dizia antigamente. Praia de gente da pele curtida, dos calções furados, das sandálias Katina. Praia sem barracas com ar-condicionado, com tudo ‘excluso’, praia ‘povão’, um e noventa e nove, zero oitocentos total. Welcome to Farofaland!  

Entre rio e mar-Barra do Jacuípe, Bahia, Brasil-Por Sávio

A turma dessa vez está muito mais organizada. Os ônibus estão distantes. Nem sinal daqueles bólidos carregados de passageiros que, feito colmeias, nos mandam centenas de pessoas alemejando apenas um domingão de lazer. Como não têm muito dinheiro para torrar, mesmo nessas bandas, onde as coisas são mais acessíveis, eles capricham na estrutura ‘farofal’. Uma tenda branca daquelas de casamento chique abriga, pelo menos, umas vinte e cinco pessoas. É hora do rango. A meninada, claro, embebida em bronzeador de saquinho, se diverte entre água e areia, esculpindo, de quando em vez, legítimos e hilariantes ‘bifes à milanesa’. Vejo aquilo e imagino a cara daquelas mulheres plastificadas, sem nenhum fio de cabelo fora do lugar, com enormes óculos Versace totalmente fashion, parecendo personagem de mangá japonês, diante de bifes à milanesa da Farofaland bem ao lado. Rio solitariamente e ninguém entende o que está se passando comigo. Ressaca de água mineral, talvez. Apenas rio. E que venham os bifes!

Debaixo da enorme tenda, no mínimo, umas cinco caixas de isopor lotadas de comidinhas gordurosas e que servem para matar a fome, dando sustança até o final do dia, quem sabe, quando chegar a hora de voltar para o ônibus, já à noitinha. O cheiro de frango assado invade o ambiente e desfila atraentemente por todo o espaço que, democraticamente, ocupamos. Cerveja, sim, Nova Schin da boa, geladíssima e saboreada a cada golada. Bebe homem, mulher, adolescente. Só não bebe criança. Uma negra bem servida de quilos, de saião rodado e sutiãs gigantes que mais parecem dois pára-quedas, dança ao som vibrante do arrocha de Nara Costa: “Ah, faz do jeitinho que Nara gosta...”. E segue no seu ritmo lento e alegre, sensualmente se esfregando no rapaz esguio que, perplexo, à sua frente, parece não saber como se juntar à avantajada dama naquela contradança esquisita e fugaz. O fim da página musical, em pleno sol escaldante do verão de janeiro, salva-lhe o pescoço.

Em Farofaland alegria não falta. Quanto mais farofa, mais energia. Sobe um cheiro de feijoada. Uma fumacinha vinda do fundo da tenda anuncia que um churrasquinho está a caminho. Cardápio variado. Já não se fazem mais farofeiros como antigamente! É isso. Keep walking. Será possível? Uma garrafa de Red Label reluz ao meu lado e começa a plainar de mão em mão. Parece uísque mesmo. O bico não fora retirado para o típico aproveitamento das garrafas com outros líquidos menos nobres. Não é licor de jenipapo. Nem cachaça. A cor denunciaria. Mas que (pré)conceito o meu! Farofaland tem toques de Oscar Freire. Não tem tapete vermelho, mas está virando a nossa própria Quinta Avenida. Isso é que é globalização!É uísque mesmo. Um legítimo Red Label, com direito a tapete vermelho imaginário nas areias desta Bahia mestiça. O andróide da propaganda sequer imaginaria que em Farofaland as pessoas também querem continuar a andar. E lá vão elas. Mas aí me lembro que o Keep Walking é do Johnnie Walker. Ah, deixa pra lá...

Foz do Rio Jacuípe, Camaçari, Bahia-Por Sávio Siqueira
    
E tudo é muito interessante. Um ritual popular. E ao invés de ficarmos destilando preconceitos, é muito interessante ver essas pessoas, tão brasileiras quanto nós, se sociabilizarem com enorme dignidade na busca por seu lazer ao sol. Literalmente, o sol tem mesmo que ser de todos. E lá para o meio-dia ou uma hora da tarde, de barriga mais que cheia, nossos amigos, belos filhos da amálgama tupiniquim, correm da tenda e se aninham às sombras dos coqueiros para, com todo luxo, tirarem uma pestana à beira-mar. A primeira sonequinha do novo ano. Saem em disparada, jogam areia em vizinhos como eu, cospem alegria na toalha de onça da madame de óculos Versace. Observo que ela, com semblante indignado, limpa a bunda roliça, estica o biquíni, desliza uma perna sobre a outra e volta ao seu Código Da Vinci. Melhor seria se estivesse entregue ao glamour plastificado da revista CARAS. Mas que nada, o verdadeiro ‘buxixo’ estava acontecendo na barraca de Farofaland logo acima. Desfile de moda de gente de bem com a vida. E CARAS perdendo esse cenário tão brasileiro...

Enfim, ano novo, vida igual, dívidas persistentes e cada vez mais aparentes. Nada como um ano após o outro (ôpa, clichê!). Um ou dois dias de ‘relax’ apenas para lembrar que a nossa vida, seja ela o que for, é mesmo uma grande farofada ao vento. Vento que controla o nosso destino, e no seu leva e traz, nos mostra que o mundo está ficando cada vez mais igual, principalmente nas classes mais abastadas, onde pode-se ser a mesma pessoa siliconada na zona sul do Rio de Janeiro, por entre os luminosos de Tóquio, nos círculos de Nova Déli, nas ruas de Manhattan. Estamos ficando tão iguais. Isso não é bom. Melhor ser farofa!

Sendo assim, que o ano novo nos traga, pelo menos, o diferente. Que resgate em cada um de nós os farofeiros que um dia fomos, sem precisarmos disso nos envergonhar. Que o ano novo renove em nossos corações a vontade de sermos simples, singelos e frágeis tal qual a própria linha da vida. Muito simples para, com muita humildade, ainda o dom dos nobres, podermos nos arrumar com toda a família, carregar uma tenda branca para a praia, encher o isopor de cerveja e comida e, depois de nos refestelarmos, brincarmos de bife à milanesa, e, exaustos, nos entregarmos à sombra generosa de um majestoso coqueiro. Seria o máximo, não? Quantos de nós deixamos de fazer essas coisas? Quantos de nós viramos pessoas de plástico? O ano apenas começou. Dá tempo de reverter. Sempre dará. Welcome to Farofaland. A vida por lá, pulsa, não imita, não simula. A vida lá é vida. Welcome to Farofaland. E feliz ano novo... de verdade. Sem silicone, falsos peitos, falsos sorrisos. Um ano novo simples e verdadeiro como o mundo das gentes de Farofaland. Simples. Só isso.   
  
Sávio Siqueira
Barra do Jacuípe, Bahia, 01 de janeiro de 2007


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