A entrada de Éfeso (Efes)-Turquia
Mal fomos dormir, já estamos acordados no saguão do hotel. São cinco
da manhã de uma terça-feira que promete ser bem quente e ensolarada. Cinco de
nós estamos escalados para uma excursão a Éfeso, a segunda maior cidade do
império romano por volta do século I a.C. Interessante notar que mesmo estando
em uma megalópole como esta, Istambul ainda parece dormir. Pelo menos, a essa
hora, diferentemente de megacidades como São Paulo, Beijing, Tóquio ou Nova Iorque,
as ruas estão vazias e nosso trajeto para o aeroporto é fácil, rápido e
tranquilo. Lá vamos nós a voar pelos céus da Turquia rumo ao interior deste
país instigante. Surpresas nos aguardam.
No terminal doméstico do
aeroporto Atatürk, temos que passar pela fiscalização logo na entrada do prédio.
Já há um monte de gente chegando para os voos executivos de início da manhã.
Seguimos para o balcão da Atlasjet,
a segunda maior empresa aérea da Turquia. Pegamos nossos cartões de embarque e
lá seguimos pela imensa fila a caminho de mais inspeção para, finalmente,
embarcarmos no Airbus 320 vermelho rumo a Izmir (Smyrna em grego, Esmirna
em português), na Anatólia, na costa mediterrânea turca e um dos pontos
turísticos mais badalados do país. Izmir é a terceira cidade da Turquia, com
uma população de aproximadamente 3 milhões de habitantes, mais ou menos a mesma
da nossa São Salvador, com a singela diferença de que a história de sua
fundação data de uns 3 mil e quinhentos anos. Está localizada no Golfo de Izmir,
bem próximo do mar Egeu.
Um voo tranquilo por céus
lindamente azuis e, em uma hora, já estávamos em terra novamente. Do lado de
fora, nossa simpática guia nos saudava em espanhol fluente, nos convidando a
embarcar na van rumo a Selçuk, cidade atual onde estão as ruínas de Éfeso.
Nosso trajeto duraria mais ou menos uma hora e meia por estradas de excelente
qualidade e com um visual fantástico de montanhas que, ao longo do caminho,
revelavam pequenas fazendas, fileiras de oliveiras a perder de vista, além daquelas
vaquinhas bem alimentadas, pastando com toda a tranquilidade, bem
despreocupadas, deixando a vida passar lentamente. Depois de adentrarmos
por algumas cidadezinhas e lugarejos, chegamos a Selçuk e seguimos para a nossa
primeira parada no alto das montanhas, pertinho de Éfeso. O lugar maravilhoso
que nos esperava era simplesmente a casa da Virgem Maria, ou seja, o lugar onde
a mãe do Cristo teria vivido os últimos anos de sua vida.
A casa da Virgem Maria, próximo a Éfeso-Turquia
Chegamos ao lar da Virgem Maria
(Meryem Anay’a Ovgu Duasi, em turco). Um lugar simplesmente místico,
surpreendente, inigualável. Ainda é maio, mas pela quantidade de gente que
segue conosco para a capela, vê-se que este deve ser um local de grande fluxo
turístico. A casa foi descoberta ainda no século XIX e, mesmo diante das
dúvidas que permanecem até hoje no tocante à sua autenticidade, tornou-se,
curiosamente, um santuário tanto católico romano quanto muçulmano. A crença de
que Maria viveu nesse local, bem próximo a Éfeso, ganhou reforço no mundo
cristão com as visitas dos papas Paulo VI, em 1967, e João Paulo II, em 1979.
Bento XVI também já esteve lá. Missas são celebradas todos os domingos. A casa
foi restaurada e as redondezas foram dotadas de toda a infraestrutura para que
as grandes quantidades de visitantes sejam bem atendidas. Não podemos
fotografar o interior da capela, mas dá para sentir uma energia absolutamente
de outro mundo ao nos deslocarmos pela simples construção de pedra e pelos
lindos jardins, e mais adiante, bem ao lado das fontes canalizadas (são três, a
da saúde, a do amor e a da fortuna – temos que beber em todas, reza a tradição)
e do muro de pedra onde as pessoas colocam seus pedidos. Hoje é dia 22,
aniversário de 18 anos de meu filho Gabriel. Embora distante dele, me sinto
privilegiado por ter estado nesse lugar e poder pedir por sua saúde e que Deus
faça dele um ser humano sempre decente. Momentos inesquecíveis. Salve a Virgem
Maria!
Descemos as montanhas, tiramos
muitas fotografias ao lado das esculturas de Maria e, finalmente, começamos nossa
caminhada pelas ruínas de Éfeso. O sol a pino nos castigava, mas ao pisar
naquelas ruas de pedra e no mosaico das antigas calçadas, me senti como se
transportado para um passado rico e extremamente revelador para quem gosta de história
como eu. Para os padrões da antiguidade, Éfeso era uma senhora metrópole. Seu
Odeon cabia em torno de 30 mil pessoas, ou seja, dez por cento da população
local (escritos dão conta de até 500 mil habitantes, não se sabe). Só Roma a
ultrapassava. Éfeso é hoje um dos sítios arqueológicos mais visitados do
planeta, pois muito do que havia por lá ainda pode ser visto in loco ou no belo museu da
cidade. Umas das doze cidades da chamada Liga Jônia (as outras eram Mileto,
Mios, Priene, Cólofon, Lêbedo, Teos, Clazômenas, Foceia, a ilha de Quios,
Eritras e a ilha de Samos – tratava-se de uma confederação formada logo depois
da Guerra Meliana, em
meados do século VII a.C.) durante o período clássico grego, lá ficava o
célebre Templo de Artêmis, uma das sete maravilhas do mundo antigo, construído
por volta de 550 a.C. O interessante é que Éfeso sofreu alguns eventos que
destruíram não só o Templo de Artêmis como muitos edifícios importantes,
principalmente durante um grande terremoto em 614 a.C. Mas foi reconstruída,
uma delas por Constantino I. Quem por aqui passa, no tocante ao templo, nota
que restam apenas uma solitária coluna e escassos destroços do que um dia foi o
maior templo do mundo antigo. Pois é, a sombra está lá e dá uma sensação
estranha chegar perto do local. Um privilégio sem par.
Apesar do que se perdeu e do que
foi subtraído nas escavações, ainda temos muito o que ver em Éfeso. Contando
com a experiência de mais de vinte anos da nossa guia, seguimos tendo aulas
incríveis de História por entre locais inimagináveis para um ser nascido no
Novo Mundo, descoberto, em tese, apenas em 1492. Começamos pelo Estádio, a
Avenida do Estádio, a Avenida do Porto, o Ginásio, o Grande Teatro, as Ágoras,
o Templo de Adriano, a belíssima Biblioteca de Celso (Celsus Library)
que, por incrível que pareça, ainda mantém seu imenso portal em excelentes
condições. O fantástico edifício foi erguido em honra ao senador Tibério Júlio
Celso Polemeno, por seu filho, Caio Júlio Áquila, em 135 d.C. Embora não fosse
comum, o local serviu também como mausoléu para Celso, que, rico e muito
popular, fora governador de Éfeso pelos idos de 115 d.C. O interessante é
sabermos que a linda biblioteca foi paga com recursos próprios pelo filho do
senador. Lá foram encontrados algo em torno de 12 mil papiros. Uma joia para a
humanidade. Éfeso é, ainda bem, um patrimônio cultural mundial.
A Biblioteca de Celso-Éfeso (Foto: Sávio Siqueira)
Passamos pelos banhos públicos
erigidos por Constantino I e suas partes integrantes, as latrinas e os bordéis,
além de inúmeras estátuas e belíssimos monumentos a vários deuses e deusas,
incluindo uma para a deusa Nika,
famosa mundialmente hoje em dia pela marca esportiva Nike. Muitas fontes também
chamam a atenção, incluindo a belíssima fonte de Trajano. Interessantes também
são as ruínas dos banhos de Escolástica, construídos por uma rica senhora com
este nome e que, como grande empreendedora, criou um complexo fantástico, um
verdadeiro spa com capacidade para mais de mil pessoas. A topografia de Éfeso
ajudava a separar socialmente os moradores. Ainda estão lá as belíssimas calçadas
feitas de mosaicos coloridos por onde os nobres circulavam. Ao final do
trajeto, o imponente Odeon, o imenso estádio construído por volta de 150 d.C.,
e usado como área para concertos, além de servir de local de encontro da
nobreza e dos visitantes ilustres. Passear por um lugar como Éfeso nos leva a
concluir que ainda temos muito a aprender vida afora. Em se tratando de
Turquia, não há como não visitar esse lugar.
Em resumo, muito pouco pude
falar aqui sobre esse nosso dia longe de Constantinopla. Um dia e tanto. Após a
saída da cidade de Éfeso, ainda desfrutamos de um maravilhoso almoço num
restaurante familiar mantido por tapeceiros locais que gerenciam uma
fábrica-escola de belíssimos e, claro, caríssimos, tapetes de toda a região.
Vimos como são feitos tapetes e como um único casulo do bicho-da-seda é capaz de
produzir incríveis 800 metros de fio. Tomei um susto. Fomos também a uma
fábrica de couro, onde tivemos o privilégio de sermos brindados com drinques
locais (o raki) e um desfile de moda,
no mínimo, inusitado. Depois disso, uma parada no excelente Museu de Éfeso para
desfrutar com calma dos belos artigos de pura arte que não ficaram no seu local
de origem, o sítio arqueológico de Éfeso.
Hora de partir. Que pena. De
volta a Izmir. Um retorno tranquilo nas asas da mesma Atlasjet. Como em vários dias,
Istambul nos brindou com um lindo pôr do sol enquanto aterrissávamos de volta
aos seus domínios. Suas muralhas antiquíssimas estavam lá, bem visíveis do
alto, suas águas, mantendo-a sempre bela. Estamos de volta de uma inesquecível
aventura. São quase onze da noite. Precisamos comer algo. O sanduíche de queijo
do avião (pelo menos não era barrinha de cereal) não deu conta. Estamos vivendo
a Turquia intensamente. Não há tempo nem para descansar. Mas isso fica para a
volta. Hoje, após Éfeso, me sinto uma pessoa diferente. Quase com asas. Um
tímido deus, quem sabe. Um nobre do conhecimento. Um ser que, cada vez mais,
entende que sabe muito pouco ou quase nada do mundo. Que mundo, meu Deus! Que
mundo! Fico por aqui e volto logo. Istambul não dorme, o neon ainda está lá, os
vendedores de kebap ainda gritam. A vida segue. É hora de
relaxar. Penso no meu João. O dia dele, para ele, ainda não acabou. Penso nele
e o entrego a Deus. Estou distante, mas o sinto bem perto. É hora de relaxar. O
neon ainda está lá. É hora de relaxar. Como posso com tanta cultura na cabeça?
O neon ainda está lá. Hora de descansar.
Sávio Siqueira
Istambul/Constantinopla, 22 de maio de 2012
Nenhum comentário:
Postar um comentário