sábado, 4 de maio de 2013

UMA VEZ VISTO O NORTE

Rio Branco, Acre (2013)

Madrugada amena no Acre. O pequeno aeroporto me traz à cabeça o aeroporto de Ilhéus, só que o mar que se vê aqui é verde, cortado por luzes de cidades e estradas que mais parecem rasgos em um tecido que resiste ser desbravado. Descubro logo pelas colegas que me recepcionam tão amigavelmente no terminal de chegada que estamos no município de Bujari, a uns dez quilômetros de Rio Branco. O calor da noite é abafado e não nos oferece aquela brisa típica do litoral. Estou uma hora a menos em relação a Brasília, saindo do Aeroporto Plácido de Castro, ao que me parece, uma figura ilustre nessas terras de cá, nesta imensa zona de floresta (ou o que sobrou dela), não tão longe do Pacífico e muito próximo do que nos acostumamos a chamar de América Latina hispânica, neste Acre que pulsa entre as linhas fronteiriças do Brasil, Peru e Bolívia, bem dentro do coração amazônico.

O dia amanhece e sigo para as atividades que aqui me trouxeram. Começo a perceber a rotina da cidade. Trânsito complicado em alguns lugares, muitas motos, poucos prédios, nomes de ruas peculiares. Ao que vejo e depois confirmo, Rio Branco tem uma relação íntima com o Ceará. Uma das suas mais longas avenidas carrega exatamente o nome do nosso estado nordestino. Razão justa, eu diria. Foi um cearense de nome estranho, meio anglicizado, Newtel Maia, quem, nos idos de 1904, fundou Rio Branco com o singelo nome de Seringal Empresa, exatamente num 13 de junho, dia de Santo Antônio. Poderia ter se chamado Santo Antônio do Acre. Dividida pelo rio Acre, a cidade se estende por dois distritos, sendo que o mais velho, o Segundo Distrito, na minha visão absolutamente superficial, parece mais pobre e com sinais mais visíveis de uma certa degradação, apesar das louváveis intervenções de restauração patrimonial. 

O trabalho na Universidade Federal do Acre (UFAC) me põe em contato com colegas professores e alunos de Letras nos mais diversos momentos dos cursos, sendo que alguns discentes bem próximos de se formar e outros bem jovens, recém-entrados no mundo acadêmico superior. Conversamos de tudo, passeamos pelo campus, fui tratado como um ilustre visitante que, na realidade, não sou. Num dos intervalos, tive a oportunidade de caminhar pelo famoso e polêmico Parque da Maternidade, um canal de saneamento que singra por vários bairros da cidade e que, pelo que me foi dito, gerou muita confusão por conta de roubalheira durante a construção. Sei não, nesse pormenor, tais particularidades apenas mudam de endereço. Mas ele está lá como uma boa opção de lazer para a população, contando com pista de caminhada, a famosa Casa do Artesão do Acre e o maravilhoso artesanato feito a partir de tudo que a floresta proporciona, além de um simpático anfiteatro para shows ao ar livre e um restaurante charmoso, O Paço, com som ao vivo e boa comida. Para quem é de Rio Branco, não esquecer que no Dia das Mães está anunciado um show só com músicas de Roberto Carlos, prometendo arrasar com os corações das nossas coroas maravilhosas que sobreviveram à choradeira pós-segunda viuvez do setentão de Cachoeiro do Itapemirim. Segundo o panfleto, “uma noite para sonhar”. Sonha, mamãe!

Tive tempo ainda de ver alguns pontos turísticos, mas, infelizmente, com a pressa daqueles que decidem que é preciso voltar com mais calma. Poucos dias, mas o suficiente para registrar coisas e nomes interessantes. Por exemplo, na margem direita do rio, onde fica o famoso Calçadão da Gameleira, considerado o centro histórico da cidade, foram erguidos uns boxes charmosos onde vende-se o famoso tacacá (iguaria da região amazônica brasileira, em particular do Acre, Amazonas, Pará, Rondônia e Amapá, preparada no tucupi), algo que me lembrou Maceió com suas indefectíveis barracas de tapioca. Deu para apreciar também a Catedral Nossa Senhora de Nazaré, com seu imenso campanário, o Palácio Rio Branco, hoje quase um feudo do PT, com suas três belas colunas clássicas, a Praça Povos da Floresta, o prédio da Assembleia Legislativa com a escultura de bronze de Luiz Galvez, o espanhol desbravador do Acre e seu governador por duas vezes, bem na frente, a Biblioteca Municipal, a linda Biblioteca da Floresta, a entrada do Parque Tucumã. Na memória, guardei de tudo um pouco.

Catedral Nossa Senhora de Nazaré (Foto: Sávio Siqueira)

Mas do que experimentei nessa rápida ida a Rio Branco, nada se compara à ida ao Novo Mercado Velho, o mercado municipal da cidade, também restaurado, e que faz parte do conjunto arquitetônico da cidade que estava completamente abandonado, servindo de zona de prostituição e tráfico de drogas. Bem defronte à margem esquerda do barrento rio, lá está ele, o novo velho prédio de belos portões arredondados, construído em 1920, adornado charmosamente de amarelo, verde e branco, as matizes da bandeira acreana, abrigando lojas de ervas naturais, de produtos religiosos, de artesanato, além de bares e restaurantes que se estendem por toda a rua num colorido bem interessante de se ver. Um ligar cheio de vida!

Sentamos bem em frente à modernosa passarela para pedestres e ciclistas Joaquim Macedo, construída entre as duas pontes que conectam os dois distritos. Com o rio Acre em um nível bem baixo dava para ver a enorme quantidade de degraus que foram construídos para segurar as águas durante as cheias. Onde ficamos, ao som de um violonista e um saxofonista que nos cobraram apenas R$ 3,00 de couvert artístico, jogamos muita conversa fora, fomos perturbados por uma mulher bêbada que não deixava ninguém em paz e ainda tivemos o privilégio de apreciar um bando de loucos fazendo bungee jump do alto da passarela. Certamente, não tão bobos, pois se a corda quebra, eles caem bem no meio das águas barrentas do rio Acre e, claro, sabendo nadar, não morrem, divertem-se.

E ali entre várias Itaipavas, música no ar e uns tira-gostos bem globalizados (mini-quibe, macaxeira frita com molho tártaro e até pizza brotinho em pedaços), começamos a contar e ouvir histórias. Eu, mais como ouvinte, tentando entender a ciência por trás do Santo Daime, as aventuras dos meus colegas por terras peruanas e bolivianas, a conversa do veneno de um sapo que cura doenças e revitaliza o corpo. Descobri, por exemplo, como é preciso compreender a situação de tensão da fronteira, como os bolivianos de Cobija veem os brasileiros, como é importante tomar o chá da coca antes de se aventurar pelas altitudes de La Paz e outras cidades da região. Tudo sabedoria adquirida através de pura experiência. Melhor não há. Ali estava eu, o aprendiz.

Ouvi muita piada, falamos de tantas coisas diferentes e em comum. Juntamos a cultura do Axé com a cultura da Floresta, e isso deu numa mistura que, certamente, perdurará na memória. Como não poderia deixar de ser, entramos pelos caminhos da linguagem e das línguas e foi aí que a coisa se espalhou. A música era boa, mas deu a hora do duo encerrar o expediente. Nós vimos que, mesmo sendo véspera de feriado, Rio Branco, como toda cidade que dorme, já estava bem sonolenta. Era chegada a hora de fechar a conversa, o papo dos novos amigos e guardar assuntos e curiosidades para o próximo encontro, desde já ali prometido.

O Novo Mercado Velho de Rio Branco (AC) (Foto: Sávio Siqueira)

Enfim, após uma bela farra de encontros, concluímos a nossa agenda passeando e, às vezes, furando sinais vermelhos das muitas ruas que me levavam não sei para onde. Só fazia lembrar das coisas que conversamos e sorrir, gargalhar, sorrir. Volto para casa e continuo a rir efusivamente em pleno voo a caminho de Brasília. Ninguém entende. Só eu. Só eu, em toda Bahia, saberei o que aconteceu com Agnaldo Timóteo num show em Manaus, quando ele supostamente, invadiu o território de uma certa celebridade. Só seu saberei o que é um “cafuçu” e a que serventia ele se presta. Só eu vou saber da má vontade com o Hotel Majú por conta do seu redundante acento agudo no “u”. Só eu. Este é o Acre que, aos poucos, vai ficando para trás. Dele vou me distanciando fisicamente, mas na memória, as lembranças se formam e me convidam a retornar. Uma vez visto o Norte, a gente quer voltar. Eu volto. Podem apostar! Uma vez visto o Norte, já se me guiar.  

Sávio Siqueira
Rio Branco-Brasília, 01 de maio de 2013


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