Rio Branco, Acre (2013)
Madrugada amena no Acre. O pequeno
aeroporto me traz à cabeça o aeroporto de Ilhéus, só que o mar que se vê aqui é
verde, cortado por luzes de cidades e estradas que mais parecem rasgos em um
tecido que resiste ser desbravado. Descubro logo pelas colegas que me
recepcionam tão amigavelmente no terminal de chegada que estamos no município
de Bujari, a uns dez quilômetros de Rio Branco. O calor da noite é abafado e
não nos oferece aquela brisa típica do litoral. Estou uma hora a menos em
relação a Brasília, saindo do Aeroporto Plácido de Castro, ao que me parece,
uma figura ilustre nessas terras de cá, nesta imensa zona de floresta (ou o que
sobrou dela), não tão longe do Pacífico e muito próximo do que nos acostumamos
a chamar de América Latina hispânica, neste Acre que pulsa entre as linhas
fronteiriças do Brasil, Peru e Bolívia, bem dentro do coração amazônico.
O dia amanhece e sigo para
as atividades que aqui me trouxeram. Começo a perceber a rotina da cidade.
Trânsito complicado em alguns lugares, muitas motos, poucos prédios, nomes de
ruas peculiares. Ao que vejo e depois confirmo, Rio Branco tem uma relação íntima
com o Ceará. Uma das suas mais longas avenidas carrega exatamente o nome do
nosso estado nordestino. Razão justa, eu diria. Foi um cearense de nome
estranho, meio anglicizado, Newtel Maia, quem, nos idos de 1904, fundou Rio
Branco com o singelo nome de Seringal Empresa, exatamente num 13 de
junho, dia de Santo Antônio. Poderia ter se chamado Santo Antônio do Acre.
Dividida pelo rio Acre, a cidade se estende por dois distritos, sendo que o
mais velho, o Segundo Distrito, na minha visão absolutamente superficial,
parece mais pobre e com sinais mais visíveis de uma certa degradação, apesar
das louváveis intervenções de restauração patrimonial.
O trabalho na Universidade Federal do Acre (UFAC) me põe em contato
com colegas professores e alunos de Letras nos mais diversos momentos dos
cursos, sendo que alguns discentes bem próximos de se formar e outros bem
jovens, recém-entrados no mundo acadêmico superior. Conversamos de tudo,
passeamos pelo campus, fui tratado como um ilustre visitante que, na realidade,
não sou. Num dos intervalos, tive a oportunidade de caminhar pelo famoso e
polêmico Parque da Maternidade, um canal de saneamento que singra por vários
bairros da cidade e que, pelo que me foi dito, gerou muita confusão por conta
de roubalheira durante a construção. Sei não, nesse pormenor, tais
particularidades apenas mudam de endereço. Mas ele está lá como uma boa opção
de lazer para a população, contando com pista de caminhada, a famosa Casa do
Artesão do Acre e o maravilhoso artesanato feito a partir de tudo que a floresta
proporciona, além de um simpático anfiteatro para shows ao ar livre e um
restaurante charmoso, O Paço, com som ao vivo e boa comida. Para
quem é de Rio Branco, não esquecer que no Dia das Mães está anunciado um show
só com músicas de Roberto Carlos, prometendo arrasar com os corações das nossas
coroas maravilhosas que sobreviveram à choradeira pós-segunda viuvez do
setentão de Cachoeiro do Itapemirim. Segundo o panfleto, “uma noite para
sonhar”. Sonha, mamãe!
Tive tempo ainda de ver
alguns pontos turísticos, mas, infelizmente, com a pressa daqueles que decidem
que é preciso voltar com mais calma. Poucos dias, mas o suficiente para
registrar coisas e nomes interessantes. Por exemplo, na margem direita do rio,
onde fica o famoso Calçadão da Gameleira, considerado o centro histórico da
cidade, foram erguidos uns boxes charmosos onde vende-se o famoso tacacá
(iguaria da região amazônica brasileira, em particular do Acre, Amazonas,
Pará, Rondônia e Amapá, preparada no tucupi), algo que me lembrou Maceió com
suas indefectíveis barracas de tapioca. Deu para apreciar também a Catedral
Nossa Senhora de Nazaré, com seu imenso campanário, o Palácio Rio Branco, hoje
quase um feudo do PT, com suas três belas colunas clássicas, a Praça Povos da
Floresta, o prédio da Assembleia Legislativa com a escultura de bronze de Luiz
Galvez, o espanhol desbravador do Acre e seu governador por duas vezes, bem na
frente, a Biblioteca Municipal, a linda Biblioteca da Floresta, a entrada do
Parque Tucumã. Na memória, guardei de tudo um pouco.
Catedral Nossa Senhora de Nazaré (Foto: Sávio Siqueira)
Mas do que
experimentei nessa rápida ida a Rio Branco, nada se compara à ida ao Novo
Mercado Velho, o mercado municipal da cidade, também restaurado, e que faz
parte do conjunto arquitetônico da cidade que estava completamente abandonado,
servindo de zona de prostituição e tráfico de drogas. Bem defronte à margem
esquerda do barrento rio, lá está ele, o novo velho prédio de belos portões
arredondados, construído em 1920, adornado charmosamente de amarelo, verde e
branco, as matizes da bandeira acreana, abrigando lojas de ervas naturais, de
produtos religiosos, de artesanato, além de bares e restaurantes que se
estendem por toda a rua num colorido bem interessante de se ver. Um ligar cheio
de vida!
Sentamos bem em frente à modernosa passarela para pedestres e
ciclistas Joaquim Macedo, construída entre as duas pontes que conectam os dois
distritos. Com o rio Acre em um nível bem baixo dava para ver a enorme
quantidade de degraus que foram construídos para segurar as águas durante as
cheias. Onde ficamos, ao som de um violonista e um saxofonista que nos cobraram
apenas R$ 3,00 de couvert artístico, jogamos muita conversa fora, fomos
perturbados por uma mulher bêbada que não deixava ninguém em paz e ainda
tivemos o privilégio de apreciar um bando de loucos fazendo bungee jump do
alto da passarela. Certamente, não tão bobos, pois se a corda quebra, eles caem
bem no meio das águas barrentas do rio Acre e, claro, sabendo nadar, não
morrem, divertem-se.
E ali entre
várias Itaipavas, música no ar e uns tira-gostos bem globalizados (mini-quibe,
macaxeira frita com molho tártaro e até pizza brotinho em pedaços), começamos a
contar e ouvir histórias. Eu, mais como ouvinte, tentando entender a ciência
por trás do Santo Daime, as aventuras dos meus colegas por terras peruanas e
bolivianas, a conversa do veneno de um sapo que cura doenças e revitaliza o
corpo. Descobri, por exemplo, como é preciso compreender a situação de tensão
da fronteira, como os bolivianos de Cobija veem os brasileiros, como é
importante tomar o chá da coca antes de se aventurar pelas altitudes de La Paz
e outras cidades da região. Tudo sabedoria adquirida através de pura
experiência. Melhor não há. Ali estava eu, o aprendiz.
Ouvi muita
piada, falamos de tantas coisas diferentes e em comum. Juntamos a cultura do
Axé com a cultura da Floresta, e isso deu numa mistura que, certamente,
perdurará na memória. Como não poderia deixar de ser, entramos pelos caminhos
da linguagem e das línguas e foi aí que a coisa se espalhou. A música era boa,
mas deu a hora do duo encerrar o expediente. Nós vimos que, mesmo sendo véspera
de feriado, Rio Branco, como toda cidade que dorme, já estava bem sonolenta.
Era chegada a hora de fechar a conversa, o papo dos novos amigos e guardar
assuntos e curiosidades para o próximo encontro, desde já ali prometido.
O Novo Mercado Velho de Rio Branco (AC) (Foto: Sávio Siqueira)
Enfim, após
uma bela farra de encontros, concluímos a nossa agenda passeando e, às vezes,
furando sinais vermelhos das muitas ruas que me levavam não sei para onde. Só
fazia lembrar das coisas que conversamos e sorrir, gargalhar, sorrir. Volto
para casa e continuo a rir efusivamente em pleno voo a caminho de Brasília.
Ninguém entende. Só eu. Só eu, em toda Bahia, saberei o que aconteceu com
Agnaldo Timóteo num show em Manaus, quando ele supostamente, invadiu o território
de uma certa celebridade. Só seu saberei o que é um “cafuçu” e a que serventia
ele se presta. Só eu vou saber da má vontade com o Hotel Majú por conta do seu
redundante acento agudo no “u”. Só eu. Este é o Acre que, aos poucos, vai
ficando para trás. Dele vou me distanciando fisicamente, mas na memória, as
lembranças se formam e me convidam a retornar. Uma vez visto o Norte, a gente
quer voltar. Eu volto. Podem apostar! Uma vez visto o Norte, já se me guiar.
Sávio Siqueira
Rio
Branco-Brasília, 01 de maio de 2013
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